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I- O Judaísmo na História.
Do ponto de vista histórico, as raízes
do povo judeu e do judaísmo são obscuras. Como se sabe,
não dispomos de documentos que possam ser cotejados com os textos
bíblicos até períodos bem adiantados da história
judaica. Nunca foi localizado, por exemplo, qualquer fonte significativa
ou inscrição real da monarquia unida ou algum texto contemporâneo
que trate dos reinos de David e Salomão . A situação
se agrava quanto mais re-cuamos no passado. Em um único documento,
a “Estela de Merneptah” (c. 1230 a.e.c.?), que dá conta
das ações externas do sucessor de Ramsés II, é
mencionado o nome “Israel” (Y-s-y-r-y-3-r), utilizando-se
o determinativo de “povo” e não de “lugar”.
No entanto, essa singular referência é muito árida
para sustentar as controvérsias que suscitou .
Mas apesar dessa indigência documental, parece claro que, em linhas
gerais, os ho-rizontes históricos delineados no pentateuco correspondem
à alguma realidade. O Gênesis afirma que a terra natal de
Abraão era “Ur dos caldeus”, na Suméria (Gn,
11:28). Embora o sumério não fosse um idioma semítico,
tanto o acadiano quanto o babilônio e o assírio, falados
ao seu redor, o eram . E realmente, quer pela comum origem lingüística
semítica, quer pela insistência em um legalismo típico
da civilização mesopotâmica, parece estar nessa região
lançada uma das raízes históricas dos hebreus. O
Gênesis também sustenta que José, descendente de Abrãao,
“fora, portanto, levado ao Egito” (Gn, 39:1), e para ali se
dirigiram, depois, seus parentes. De fato, não são poucas
as evidências sobre as influências egípcias no pensamento
judaico. Elas se fortaleceram após as descobertas em Amarna, antiga
capital do faraó reformador Aquenáton (c. 1364-1347 a.e.c).
Abrindo mão de qualquer fantasia teológica, foi já
anotada a similitude entre o monolátrico “Hino ao Sol”
de Aquenáton e o Salmo 104. Pode-se, portanto, aceitar que no Egito
se encontra um outro importante pilar da civilização judaica.
A presença do Nilo, do Tigre e do Eufra-tes é constante
em toda literatura bíblica.
A formação da identidade do povo hebreu, no entanto, repousa
na sua essencial desvinculação desses dois universos civilizacionais.
O Pentateuco assegura que o deslo-camento dos hebreus do Egito em direção
à Canaã, terra prometida ao patriarca Abraão, foi
um dos momentos cruciais determinantes dessa particularidade. Esse acontecimento
apresenta dificuldades para os historiadores. Em nenhum arquivo, entre
os diversos encontrados em estados limítrofes, há referências
ao processo de estabelecimento do povo hebreu em Canaã. Na Bíblia
(1Rs 6:1) está escrito que o êxodo ocorreu 480 anos antes
da construção do Templo de Jerusalém, ou seja, algo
em torno de 1430 a.e.c. No entanto, o Êxodo explica que os judeus
cativos construíram a cidade de Ramsés (Ex 1:11) o que,
se-gundo alguns, nos leva a datar o evento para algum momento posterior
a 1290 a.e.c. . De qualquer forma, não existe clareza sobre o assunto
na arqueologia do Sinai. Não são evidentes, do ponto de
vista arqueológico, correlações entre esses acontecimentos
e um vir-tual processo de ocupação de Canaã. São
imprecisos os sinais de conflitos militares em Israel nessa época.
Há, sem dúvida, um processo de desenvolvimento urbano em
Canaã no período entre 1250 e 1050 a.e.c “por pessoas
que eram íntimas da cultura cananita e fazendeiros experimentados”
. Mas semelhantes lacunas e dificuldades documentais tor-nam difícil
a construção de teorias sustentadas para os momentos fundadores
da identidade judaica. No entanto, pelo menos duas propostas tem suscitado
as reflexões dos his-toriadores e arqueólogos.
A primeira é a de Albrecht Alt. Alt propôs que Canaã
foi lentamente infiltrada no pe-ríodo final da idade do bronze
(c. 1200 a.e.c.) por pastores nômades, hebreus. Tratar-se-ia de
um tipo de deslocamento pastoril muito comum na Antigüidade e na
região. Esses povos se fixaram no interior, distante dos núcleos
urbanos cananitas. O fato das regiões montanhosas serem a área
por excelência de ocupação hebréia parecia
a Alt um forte argumento favorável. A subseqüente organização
de ligas tribais conduziu os hebreus ao confronto com os cananeus . A
saga, contida em Josué, de uma invasão hebréia de
Canaã seria uma construção mítica posterior.
Talvez análoga à visão que a civilização
védi-ca, na Índia, tinha de suas origens, isto é,
não derivada de um processo de colonização lento
e centenário, mas oriunda de uma invasão primeva, fundadora
de direitos de con-quista.
Uma segunda teoria para explicar a origem do povo judeu é a de
G. Mendenhall. A partir da correspondência de Amarna, Mendenhall
identificou o grupo social ou étnico dos ‘apiru/habiru. Estes
são, nos textos egípcios, caracterizados como escravos fugitivos
ou camponeses sem terra. Mendenhall propôs então que essa
palavra poderia estar conecta-da de alguma forma com o vocábulo
que identifica o hebreu, ‘ibri, yrbu. Assim, os primeiros israelitas
seriam camponeses marginais, segmentos sociais resistentes ao poder, alguns
deles talvez oriundos do Egito, que ocupavam regiões agrárias
em torno das cidades ca-nanitas. Oprimidos pelo universo urbano e estatal
cananeu, acabaram por erguer-se em um movimento social-revolucionário
que buscava a justiça e o estabelecimento de leis de harmonia e
igualdade social . Alguns, como Moran, acham difícil a associação
entre habi-ru/’ibri . Mas isso não parece ser um obstáculo
à tese . A teoria de Mendenhall apresen-tou a interessante possibilidade
de explicar a insistência judaica na Justiça e na igualda-de,
principalmente em questões fundiárias. Igualmente permitiu
compreender o caráter contestador do pensamento político
hebreu e sua denúncia do processo de organização
estatal e as expropriações subsequentes, cujas conseqüências
mais claras encontram-se no profetismo posterior.
A tese de Mendenhall é superior, do ponto de vista qualitativo,
à de Alt. Principal-mente no campo da história das religiões,
pois possibilita a depreensão de que as experi-ências históricas
das sociedades articulam paradigmas qualificadores que podem possuir significações
religiosas profundas. É evidente, no entanto, que ela não
alcança o âmago da gênese da proposição
religiosa. Esta não pode ser explicada apenas em função
das variáveis objetivas, mas também das decisões
e inspirações subjetivas. É difícil falar
do surgimento do povo judeu e do judaísmo, ou de qualquer sistema
religioso, sem a consideração dessas interpretações
qualitativo-religiosas subjetivas fundadoras. Elas estabele-cem conceitos
religiosos essenciais que, mesmo padecendo de transformações
posteriores, são utilizadas pelas gerações subseqüentes
no estabelecimento de parâmetros para a pre-servação
das identidades e coerências sistêmicas. A dificuldade no
estudo desse processo é significativa, no entanto. Há tantos
problemas em alcançar a solução documental para os
elementos objetivos das origens do povo judeu quanto no estudo dessa subjetividade
fundadora.
Tal realidade pode ser observada nas discussões a respeito da estrutura
do penta-teuco. Os cinco livros atribuídos a Moisés são,
como vimos, uma fonte para o estudo dessas origens -senão as objetivas,
pelo menos das subjetivas. Definir onde, quando e como os conceitos religiosos
foram definidos, através da decifração literária
e histórica do texto, pareceu aos lingüistas e historiadores
um caminho para dimensionar a subjetividade no interior da história.
Poder-se-ia não se ter os elementos arqueológicos materiais
suficientes, mas tendo-se os elementos dessa arqueologia textual talvez
pudesse ser alcançado um certo dimensionamento histórico
da arquitetura conceitual fundadora do judaísmo. Essa foi a perspectiva
dominante no campo a partir do iluminismo.
Blenkinsopp apontou com precisão que um dos primeiros intelectuais
a tratar o as-sunto foi Wilhelm De Vette (1780-1849). De Vette assinalou
que o livro das Crônicas afirma a existência de toda uma estrutura
legal e de crenças já nas origens da monarquia unificada.
Isto contradiz, por exemplo, o livro dos Reis. Assim, em Crônicas
estaria pre-sente a existência de um movimento de projeção
do sistema em vigor no período persa na direção do
passado, a fim de legitimá-lo. Esse processo permitiria sugerir,
em conseqüên-cia, que o material legal existente no pentateuco
foi ali introduzido a posteriori . O fato dos profetas pré-exílio
não mostrarem muita familiaridade com o sistema legal mosaico ou
com a lei ritual reforçaria esse argumento . A existência
de um complexo sistema de inserções e modificações
textuais processadas ao longo de séculos tornou-se então
evi-dente.
Wellhausen estabeleceu a teoria básica sobre estrutura do pentateuco
que tornou-se padrão por muito tempo. O livro, evidentemente não
mais atribuído a Moisés em seu conjunto, seria composto
de duas fontes primárias, a chamada Javista (J), oriunda de Judah,
talvez, e a Eloista (E), provavelmente oriunda de Israel, articuladas
por um redator javista em torno do século X a.e.c. Há uma
outra fonte cujo núcleo é a lei ritual (Lev 17-26) que foi
denominada Sacerdotal (S). E, por fim, uma quarta fonte, a Deuteronômica
(D). Como a narrativa no Deuteronômio mostra familiaridade com J
e E, mas não com S, o livro deve ter sido combinado com fontes
antigas antes de ser articulada com S. A seqüência histórica,
portando, seria JEDS. Considerando os elementos presentes no livro dos
Reis e na literatura pós-exílio, tudo leva a crer que o
texto do pentateuco foi ultimado em torno do tempo de Esdras, isto é,
no período persa, no século V a.e.c. . A datação
aproximada da consolidação do pentateuco no período
pós-exílio não é incongruente com uma certa
visão que o texto bíblico possui sobre o assunto. Em 2Rs
22:8 é narrado que, durante o reinado de Josias, em 621 a.e.c.,
quase 800 anos após a data estimada do êxo-do, foi descoberto
o “Livro da Lei no Templo do Eterno”. Trata-se, provavelmente,
do Deu-teronômio, ou parte dele. E o livro Neemias, relata o entusiasmo,
e surpresa, com que a população de Jerusalém recebeu
a grande leitura pública da Lei, por Esdras (Ne 8). Tratava-se,
portanto, de um texto que possuía uma história bem complexa,
fato reconhecido pelas fontes judaicas posteriores.
A crítica textual ampliou, no século XX, os seus horizontes.
Como escreveu Blen-kinsopp, “as fontes entraram em colapso e se
desintegraram numa multiplicidade de componentes e estratos” . Diferentes
narrativas, tradições, formulações teológicas
e inserções foram localizadas e depreendeu-se que foram
inseridas e alteradas por redatores de diferentes temporalidades. A questão
básica, no entanto, é que o estudo do mistério da
associação textual foi quase sempre relegado. Isto é,
poucas pesquisas foram destinadas às razões pelas quais
diferentes fontes foram associadas umas às outras. Poucas análises
se dedicaram à investigação das decisões dos
escribas que, ao longo das gerações, acreditaram estar dialogando,
numa linguagem atemporal, entre si, e depreendendo sentidos ocultos, não
históricos, entre os diversos componentes textuais. Ou seja, não
se esclareceu o mistério das origens, mas também não
se tentou pensar sobre o enigma da perma-nência.
No campo da história das religiões essa perspectiva é
central por permitir a compreensão do papel e da dinâmica
da subjetividade na história. Ao tratarmos com as perma-nências
e insistências religiosas, podemos lançar luzes sobre os
elos que permitem a um texto tão plural, como é o pentateuco,
tornar-se um livro único, solidamente instalado como referência
conceitual para muitas temporalidades e etnicidades. O nosso objetivo
é, portanto, discutir um dos elementos presentes de forma insistente
nos textos bíblicos: o tema da associação entre eternidade
e transitoriedade no curso dos eventos humanos. Muito embora a insistência
dos escribas sacerdotais seja clara no sentido de adequar di-ferentes
fontes às suas preocupações histórico-legalistas,
também nos parece claro que existe, em distintos fragmentos bíblicos,
uma permanente inquietude com o tema da precariedade do tempo histórico
e a percepção da presença, em seu interior, de uma
realidade que tem, como um de seus atributos, a eternidade. Esse fato
pode sugerir uma explicação tanto para a congruência
interna do texto quanto para as razões de sua misteriosa sobrevivência.
Assim, não trabalharemos com o tema das origens, mas sim com o
da per-manência, através da análise do desenrolar
coerente de uma proposição teórica ao longo da literatura
bíblica.
II- O Judaísmo e a História.
Tem sido sustentado que o pentateuco pode ser comparado
aos trabalhos historio-gráficos gregos, como os de Heródoto,
Hecateu de Mileto e Helanico de Lesbos. Van Seters e Whybray , especificamente,
insistiram nessa correspondência. Tal associação possui
alguma lógica, na medida em que a data proposta para a consolidação
básica do pentateuco está em torno do século V a.e.c.,
mesmo período da produção de Heródoto. Não
é impossível, embora improvável, que existissem contatos
intelectuais entre escribas judeus e intelectuais gregos. Whybray chegou
a defender que o texto em seu conjunto é obra de um único
pensador inspirado que trabalhou de forma muito parecida à de Heródoto
. No entanto as aproximações entre os dois corpi documentais
não parecem ir muito adiante. Um aspecto que distingue os textos
em questão é a associação entre as histórias
nacional e universal, presente no texto judeu. Tal articulação,
de origem mesopotâmica, só se fará presente na historiografia
grega bem depois . Outro é a preocupação moral e
religiosa do pentateuco , muito diferente da abordagem anedótica
da historiografia grega . Mas é evidente que não apenas
no pentateuco, mas em todo corpo literário judaico, a preocupação
com a história é central e absoluta.
Mas que história? Um trecho do pentateuco particularmente esclarecedor
nesse sentido é aquele que trata do Jardim do Éden (Gn 2:4b-3:24).
Essa passagem possui pro-vavelmente um núcleo Javista (J), cuja
redação data, talvez, segundo Eissfeldt e Fohrer , do período
inicial da monarquia unida (século X a.e.c.). Trata-se, portanto,
de um texto arcaico. Ele conta que no paraíso habitaram os primeiros
homem e mulher, Adão e Eva. “Entre toda espécie de
árvores formosas de ver e boas de comer” que ali havia, existiam
duas árvores singulares, uma “do conhecimento do bem e do
mal”, outra “da vida”, ou da imortalidade (Gn 2:9).
Entre o casal primordial e o ambiente existia um estado de harmonia plena.
Não é certo que o homem fosse, na ocasião, imortal,
já que somente a fonte criadora é eterna, mas apenas que
não era manifesto no ser o reconhecimento do tempo ou da morte.
Tal situação de equilíbrio foi, no entanto, rompida
pelo ato humano de comer o fruto da “árvore do conhecimento”.
Este movimento tornou o homem versado “no bem e no mal” (Gn
3:5), deu-lhe “discernimento” (3:6) e abriu-lhe os olhos (3:7).
A conseqüência dessa atitude foi a súbita percepção
de uma realidade marcada pela finitude. Talvez na medida em que conhecimento
é consciência, tornaram-se perceptíveis a dor, o desejo,
o sofrimento, as possibilidades do trabalho e do poder e as realidades
do nascimento e da morte. E, como fica claro, um pouco adiante, no episódio
de Caim e Abel, instalou-se o conflito do homem contra o homem. “YHVH
Elohim”, conversa duramente com o homem: “comeste então
da árvore que te proibi de comer!” (Gn, 3:11). “E o
expulsou do Jardim do Éden para cultivar o solo de onde fora tirado”
(Gn, 3:23), isto é, separou o ser dessa har-monia primordial, da
qual, de fato, o homem já havia se divorciado ao comer do fruto.
“YHVH Elohim” é particularmente preocupado que o humano
“não estenda a mão e colha também da árvore
da vida, e coma e viva para sempre” (Gn 3:22). Essa “expulsão”,
portanto, tornou consciente no humano a impossibilidade da imortalidade.
O caminho da árvore da vida passou a estar guardada por querubins
e pela “chama da espada fulguran-te” (Gn 3:24).
A partir desse instante, segundo o redator javista, os seres humanos estarão
envol-vidos em um processo que é marcado pela sucessão de
vidas e eventos transitórios. Em hebraico bíblico não
existe uma palavra que designe tal movimento de forma específica,
como a nossa História. A expressão que mais a ela se aproxima
e que contém os elemen-tos fundamentais para o entendimento dessa
sucessão de acontecimentos é toledot, twdlwt “gerações”.
Mas em que pese o fato dessas gerações serem tomadas pela
pretensão de exercer o controle cada vez maior do mundo, encontram-se
sempre diante da impossibili-dade de faze-lo, ou diante da dimensão
transitória das coisas. A historiografia judaica, no entanto, possui
uma inflexão religiosa fundamental, e nela se depreende que uma
força maior, que engendrou o homem e é externa ao mundo
sensível, continua de forma per-manente a agir, como uma fonte
inesgotável, apesar do homem conhecer e atuar. Ela funciona, na
natureza e nas gerações, talvez, como o “manancial
que subia da terra e regava toda a superfície do solo” que
existia no Paraíso (Gn 2:6), isto é, como a origem infinita
da finitude. Os homens, portanto, continuam envolvidos no diálogo
iniciado no Éden com essa instância que, ao contrário
do humano, é eterna e auto-sustentada. O tema continua sendo o
mesmo: os alcances e limites do conhecimento, a natureza do discernimento,
a manutenção da harmonia ou desarmonia na ordem das coisas.
Trata-se de um diálogo que continua indefinidamente, através
das gerações e, principalmente, nas gerações,
isto na história.
“O Judaísmo”, escreveu Heschel, “é uma
religião da história, uma religião do tempo. O Deus
de Israel não é encontrado de forma primária em fatos
da natureza. Ele fala através de eventos na história”
. Nessa perspectiva, por não compartilhar dos atributos da eternidade,
o ser humano só pode contatar o infinito através da finitude
do mundo. Sendo a natureza das gerações a mudança,
cada experiência é particular e única. Como termo
de comparação podemos tomar a tradição religiosa
hindu, cuja concepção a respeito do tema é bem diferente.
No antigo poema épico Mahabharata há uma passagem denomina-da
Bhagavad Gita. Nela, um dos irmãos pandavas, Arjuna, hesita diante
de uma guerra fratricida. O deus Krishna, que é o seu auriga, paralisa
o tempo, e num hiato entre se-gundos afirma-lhe a eternidade do ser: “Nunca
houve tempo em que eu não existisse, nem tu, nem nenhum desses
nobres...o verdadeiro ser vive sempre” (Bhagavad Gita, II:2). É
necessário que Krishna paralise o tempo, interrompa o fluxo da
história, para que Arjuna possa entrar em contato com o Eterno.
Na literatura judaica, ao contrário, o diálogo com a eternidade
dá-se sempre dentro da temporalidade. A natureza desse encontro
é, portanto, singular. É significativo que, enquanto Moisés
está no monte Sinai, recebendo as leis divinas, a história
continue seu curso, a ponto de, quando descer da montanha, encontrar os
hebreus adorando o bezerro de ouro (Ex 32). Essa historicidade fundamental
do judaísmo será desenvolvida na literatura posterior, especialmente
nos textos proféticos.
São os profetas, de fato, os que mais aprofundaram as conseqüências
dessa concepção da história como o campo de interação
entre o humano e o divino. Primeiramente, consolidaram a tese de que a
crise do Éden foi assinalada pela pergunta de Deus dirigida ao
homem, quando este se escondeu após ingerir o fruto do conhecimento:
“Onde estás?” (Gn 3:9). Essa pergunta continua ecoando
ao longo das gerações, de todas as gerações,
tanto de judeus quanto de não-judeus. Esse chamamento à
responsabilidade humana na gestão do conhecimento, ou da consciência,
é universal, assim como a história. Isso é claro
no caso dos profetas hebreus, permanentemente chamados. É claro
com relação à descendência da Abraão,
e os textos bíblicos são, em grande medida, a história
desse chamamento ao povo judeu. Mas é claro também no que
diz respeito às pessoas comuns, judeus ou não-judeus e aos
outros povos. Amós (séc. VIII a.e.c.), com efeito, enumerou
os erros éticos cometidos não apenas pelos habitantes de
Israel e Judá, mas também pelos de Damasco, Filistéia,
Tiro, Edom, Amon e Moab. (Am, 1:3-13, 2:1-7). O texto declina a universalidade
do chamado: “Vocês são para mim como os cuchitas, ó
filhos de Israel – palavra de IHWH. Não fiz Israel subir
da terra do Egito, os filisteus de Caftor e os arameus de Quir?”
(Am, 9:7). Assim, toda a humanidade faz parte dessa grande história
que é a história da descendência de Adão e
toda ela, envolvida com as questões derivadas do conhecimento,
é permanentemente chamada a responder pelos seus atos. E sempre,
como Adão ou Caim, ou como séculos depois, Jonas, busca
sempre se esconder dessa verdade absoluta.
“Melhorai os vossos caminhos e as vossas obras”, disse o profeta
Jeremias (séc VI a.e.c.) (Jr 7:3). Mas em que sentido? Se voltarmos
aos eventos ocorridos no Jardim do Éden, parece que a tese contida
na literatura bíblica é a de que o chamamento tem por objetivo
convidar o homem a administrar o conhecimento e o poder dele decorrente
de uma forma harmoniosa. Tendo-se em mente o paradigma de equilíbrio
que é característi-co da eternidade fundadora. Caim, não
por acaso um agricultor, isto é, envolvido direta-mente com as
bases mais essenciais das transformações históricas,
mata seu irmão Abel, um pastor. A pergunta de Deus é novamente
repetida, mas agora num sentido bem mais preciso. No lugar de “Onde
estás?” ouve-se “Onde está seu irmão
Abel?” (Gn 4:9). A natu-reza desse chamamento divino parece definir
o rumo da história a partir da aceitação ou recusa
da responsabilidade social do sujeito. Está aqui contida a teoria
de que as trans-formações históricas decorrentes
do conhecimento, o desenvolvimento da agricultura ou o surgimento do Estado,
por exemplo, colocaram o homem contra o homem. O compromisso com a fonte
criadora se expressa, portanto, de forma mais visível no compromisso
do homem consigo mesmo. O ser humano não pode se esconder de si
próprio, de sua condi-ção ou de seus próximos.
Isto é, deve-se buscar a harmonia social correspondente à
har-monia eterna, a fim de que sejam legitimadas as ações
humanas. E harmonia aqui deve ser entendida basicamente como o espírito
essencial da Justiça.
O primeiro Isaías (séc. VIII-VII a.e.c.), com efeito, afirmou
essa dimensão social da questão: “Ai dos que promulgam
leis iníquas, os que elaboram rescritos de opressão para
desapossarem os fracos do seu direito e privar da sua justiça os
pobres do meu povo, para despojar as viúvas e saquear os órfãos”
(Is 10: 1-2). Toda a literatura profética está re-pleta
de temas sociais, onde a denúncia dos abusos dos poderosos coincide
com o espírito da mensagem divina. A estrutura da sociedade está,
para os profetas, em flagrante rota de colisão com o espírito
da força que permite o surgimento da mesma sociedade. O caráter
contestador dessa historiografia é evidente. Nem os próprios
reis ungidos, David e Sa-lomão, por exemplo, escapam dessa crítica
visceral, que é crítica à própria organização
do Estado. Quando os hebreus pedem um Rei a Deus, por exemplo, o profeta
Samuel lhes explica, soturnamente, que o Rei “exigirá o dízimo
dos vossos rebanhos, e vós mesmos vos tornareis seus escravos”
(1Sm 8:17). Quanto mais o conhecimento engendra o auto-centramento humano,
mais ele é desarmonioso, mais distantes os homens estão
de suas raízes ontológicas, mais ilegítimos seus
atos. A pretensão humana de colocar-se no lugar de Deus, portanto,
como a de almejar a imortalidade, mistura dimensões absolutamente
distintas, o transitório e o eterno. Propicia a destruição
de todos os padrões, inclusive os de harmonia e justiça.
A perspectiva crítica do estudo das gerações, ou
da história, é, na literatura bíblica, fundada numa
crítica ética.
De fato, nos textos bíblicos, especialmente na literatura profética,
uma das denún-cias mais incisivas é a da irresponsabilidade
humana diante do conhecimento, ou do poder que ele gera. Da fuga humana
ao chamamento divino. Poucas passagens são mais expressivas nesse
assunto do que aquelas que envolvem o profeta Jeremias. Em que pese sua
insistência na necessidade humana de correção, que
o leva ao escárnio público, à prisão e à
ameaça de morte, a displicência dos humanos é inamovível.
O rei Sedecias, colocado diante das palavras de Deus, escritas por determinação
de Jeremias para que tomasse conhecimento dos seus erros, é totalmente
irresponsável: “O rei estava sentado em sua casa de inverno...
e o fogo de um braseiro ardia diante dele. E assim que Judi lia três
ou quatro colunas, o rei as cortava com a faca do escriba e as lançava
no fogo do braseiro, até que todo rolo foi consumido pelo fogo
do braseiro”. (Jr 36: 22-23). Quando Jerusalém é tomada
pelos babilônicos, o rei Sedecias é capturado e seus olhos
furados, numa metáfora ilustrativa da tragédia da condição
humana. Se os olhos de Adão e Eva se abriram, a inabilidade do
ser em lidar com o conhecimento o conduz, no entanto, à ce-gueira(Jr
39:7). O desastre humano está, portanto, fundado na recusa em reconhecer
o significado fundador da eternidade como fonte do conhecimento. Como
escreveu Heschel, as mitsvot, isto é, os mandamentos divinos, “não
são ideais, entidades espirituais sus-pensas na eternidade: mitsvot
são fins espirituais, pontos de eternidade no fluxo da tem-poralidade”
. A tese aqui contida talvez seja a de que o homem não pode tornar-se
infini-to, mas pode viver em harmonia com o infinito, mesmo na finitude,
se reconhecer humil-demente sua real dimensão no mundo e sintonizar-se
com o espírito da moralidade uni-versal.
Não parece haver dúvidas, portanto, nessa historiografia,
que as tragédias da histó-ria são fruto das próprias
decisões humanas. Gradualmente, quanto mais entramos na literatura
profética, as ações divinas punitivas através
de eventos naturais decrescem em número e significação.
As reações divinas passam a ser prioritariamente históricas:
inva-sões estrangeiras, atrocidades, derrotas, desarticulação
social. Isto é, elas se tornam pre-sentes como reação
humana a atos humanos. Jeremias parece muito pessimista sobre as possibilidades
do homem escapar dessa história reacionária e seus ciclos
infinitos de tra-gédias, que começaram com Adão e
Eva ao experimentarem o conhecimento. Mas os pro-fetas do final do período
do exílio, ou posteriores ao século VI a.e.c., como Ezequiel,
Abdias, o segundo e o terceiro Isaías e Jonas, insistirão
que existe a possibilidade de uma harmonia nas gerações.
Ou que o rumo da história, tal como definido pelo divino, é
mar-cado pelo amadurecimento crescente dessa possibilidade. Em Jonas,
por exemplo, tal transformação pode ser realizada basicamente
através de atos de consciência. Isto é, a atitude
de ruptura, revolucionária, interrompe os ciclos reacionários.
Assim, a decisão da população de Nínive de,
subitamente, aceitar a Justiça divina como sua regra de compor-tamento,
e Justiça divina é basicamente justiça social, a
livra da destruição (Jn 3).
É claro que é muito forte a tese de que tal transformação
será decorrente de uma definitiva intervenção divina
na história, através do Messias. Diz o terceiro Isaías:
“Com efeito, vou criar novos céus e nova terra; as coisas
de outrora não serão lembradas, nem tornarão a vir
ao coração. ...Já não haverá ali criancinhas
que vivam apenas alguns dias, nem velho que não complete a sua
idade ... Os homens construirão casas e as habitarão, plantarão
videiras e comerão os seus frutos. ... os meus eleitos consumirão
eles mesmos o fruto do trabalho de suas mãos” (Is 65: 17-22).
O sentido inspirado da história, assim, o único que é
eterno e guarda correspondência com as fontes da existência,
é o da busca e realização da harmonia e da Justiça.
E ele acabará por irromper dentro do tempo. O mesmo Isaías
recorda mais uma vez o Jardim do Éden. A sociedade utópica
é aquela aon-de não haverá mais chamado nem fuga,
o homem se reencontrará com o homem e o equi-líbrio será
restabelecido: “Acontecerá então que antes de me invocarem,
eu já lhes terei respondido; enquanto ainda estiverem falando,
eu já os terei atendido. O lobo e o cordeiro pastarão juntos,
e o leão comerá feno como o boi” (Is 65: 24-25).
Assim, sendo um ato de conversão ou fruto da ação
messiânica, de qualquer forma a Justiça se realizará
na história, e não fora dela. Não se trata de um
retorno ao Éden. Por isso Isaías relembra a fonte que existia
no paraíso, mas explica que a sua dimensão inte-gradora
será recuperada pelos seres humanos através de atos históricos.
“se afastares do meio de ti o jugo, o gesto ameaçador e a
linguagem iníqua; se tu te privares para o famin-to, e se tu saciares
o oprimido, a tua luz brilhará nas trevas, a escuridão será
para ti co-mo a claridade do meio-dia. O Eterno será o teu guia
continuamente e te assegurará a fartura, mesmo em terra árida.
Ele revigorará os teus ossos, e tu serás como um jardim
regado, como uma fonte borbulhante cujas águas nunca faltam”
(Is 58: 9-11).
III- Conclusões.
Existe uma fragmentação documental no pentateuco
e na literatura bíblica. Mas mesmo assim esses textos guardam uma
unidade fundamental. Um de seus elementos aglutinadores centrais, que
aparentemente concentrou a atenção dos escribas ao longo
dos séculos, foi a construção de uma teoria da história,
ou de uma explicação para os eventos que tem lugar no curso
das gerações. Trata-se de uma teoria que buscou explicar
o desenvolvimento histórico a partir de uma complexa trama de conflitos
entre o humano e o divino, entre a vivência do limitado e as possibilidades
de experimentar o ilimitado. Um de seus aspectos mais específicos
é a crença de que a história tem um ritmo e um sentido,
isto é, que ela está centrada no diálogo entre o
tempo e a eternidade e que cami-nha para a realização de
um novo patamar na relação do homem consigo mesmo. Essa
perspectiva otimista da história é igualmente otimista com
relação ao humano.
A historiografia judaica também aponta, com uma clareza que encontramos
rara-mente na historiografia antiga, que as escolhas realizadas pelo homem
ao longo da história, principalmente no exercício do poder,
guardam uma permanente tendência à ilegiti-midade. Isso não
é absolutamente original. A literatura budista realizou, na Antigüidade,
uma crítica econômica e histórica da construção
do poder, apontando o movimento de delimitar propriedades como o ato fundador
do Estado (Agganna Sutta,11). Mas o judaís-mo realizou semelhante
crítica a partir de uma outra vertente, ética, fundada na
tese de que a passagem para a agricultura, ou a expulsão do paraíso,
foi assinalada pelo desejo humano de tudo saber e de ser eterno. Nesse
sentido o ser negou-se a reconhecer a exis-tência de regras maiores
e absolutas. A impossibilidade de realização desse desejo
é uma das razões da reacionária e trágica
experiência da história. E embora budismo e judaísmo
vejam a possibilidade real de uma ruptura libertadora e o advento de uma
existência so-cial harmoniosa, o budismo sempre considerou tal probabilidade
como oriunda apenas de decisões individuais. O judaísmo,
ao contrário, jamais perdeu de vista a natureza coletiva de qualquer
experiência histórica transformadora. Transformar a história
só é possível através da transformação
da humanidade.
Parece claro que poucas investigações históricas
alcançaram uma compreensão absoluta das razões que
propiciaram o desenvolvimento e o amadurecimento de semelhan-tes e singulares
proposições. Mas é evidente que se trata de um desenvolvimento
centená-rio, cuja razão repousa em recorrentes ansiedades
humanas. Se há dúvidas, portanto, sobre suas origens históricas,
não parece haver muitas suspeitas sobre as razões que conduziram
o judaísmo à sua sobrevivência e à importância
que desempenhou e desem-penha na história do Ocidente. O judaísmo
pode ser caracterizado como um dos primeiros sistemas a entender que no
fluxo das gerações está contido um processo de amadureci-mento
da consciência. Em conseqüência afirmou que está
ao alcance do humano definir as bases éticas de uma nova ordem
social, justa e harmoniosa.
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