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Isaac Babel foi um dos escritores judeus
que gravitaram em torno da revolução de outubro e seus temas.
Como escreveu sua filha, Nathalie Babel, no prefácio de uma recente
edição de “Cavalaria Vermelha” (New York, Norton,
2002), Babel foi simultaneamente “um escritor so-viético,
russo e judeu”. De fato, seu entusiasmo com o comunismo foi imediato
e o defendeu sempre. A sua experiência como correspondente durante
a guerra civil engendrou as mais inqui-etantes páginas da nascente
literatura soviética. Mas era também influenciado pela literatura
iídiche e nunca renegou o seu valor. Esta transparece, por exemplo,
em estrutura e narrativa, no célebre conto “O filho do Rabino”,
no qual Lênin e Maimônides se juntam no ideário do
jovem soldado judeu soviético. Pode-se dizer que Babel era, nesse
sentido, mais judeu que outros es-critores do momento, como Ilya Ehrenburg.
Mas Babel, assim como outros intelectuais e artistas que apoiaram sinceramente
o regime de 1917, viu-se envolvido no redemoinho político revolucionário.
Ele tornou-se íntimo de um cír-culo particularmente importante,
mas perigoso, no Kremlin: aquele do então poderoso chefe da polícia
política, NKVD, Nikolai Ehzov. Embora tivesse apenas o curso primário,
Ehzov cerca-va-se de escritores e intelectuais e traficava influências
entre eles. Em 1938 Ehzov foi destituído do cargo e imediatamente
preso. Assumiu seu posto Laurenti Beria. Logo em seguida começa-ram
a ser detidos os seus amigos e conhecidos. Entre eles estava Isaac Babel.
A idéia de que o verdadeiro caráter dos homens se revela
nos momentos de crise pode ser con-firmada no caso da tragédia
pessoal de Babel. A publicação de seu processo judicial
por Vitali Chentalinski em “A Palavra Ressuscitada” (Paris,
Laffont, 1993), lançou muitas luzes sobre esse momento - até
então pouco conhecido - de sua vida. Especialmente sobre seus traços
de caráter. Babel foi preso de madrugada, em 27 de maio de 1939.
Foi levado para Lubianka, a sede do NKVD. Ali, foi-lhe dado papel e lhe
pediram que escrevesse seus dados pessoais. As-sim começa o processo
de Isaac Babel: “nascido em 1894, em Odessa”, anota, “escritor,
sem partido, judeu”, dessa forma se define.
As acusações que pesam sobre ele e outros integrantes do
círculo eram amplas e comuns naque-les tempos: atividades anti-soviéticas,
espionagem, trotskismo. No processo cuidadosamente preservado, constam
seus diversos interrogatórios e depoimentos. Inicialmente Babel
negou todas as acusações: “não sou culpado...
considero que minha detenção é o resultado de um
fatal acúmulo de coincidências...”, mas terminou por
reconhecer que “tenho viajado com freqüência ao estrangeiro
e mantive relações com destacados trotskistas”. A
partir daí suas confissões se tornam mais amplas e comprometedoras.
É provável que a facilidade com que assumiu as acu-sações
fosse devida à intensas pressões físicas e psicológicas.
O fato, no entanto, é que confessou, e na medida em que o processo
caminha, o fez com mais detalhes. Assim, consta, “entre 1927 e 1932
viajei a Paris, onde fui acolhido entusiasticamente pelo setor cadete
e menchevique da emigração” e que “entre os
encontros anti-soviéticos que tive em Paris cabe mencionar a Zhabotonski,
o chefe da ala fascista do partido sionista”. E é falando
sobre Paris que seu depoimento confirma as acusações: “em
1933, durante minha se-gunda viagem a Paris, fui recrutado pelo escritor
André Malraux para fazer trabalho de espiona-gem a favor da França...”.
A partir desse momento, Babel começa a citar nomes de cúmplices
e colaboradores, quase todos notáveis artistas e intelectuais de
seu tempo. Denuncia, especialmen-te, Ehrenburg: “Ehrenburg me apresentou
a Malraux... Ehrenburg defendeu Bukhárin, durante seu processo...
Ehrenburg criticava energicamente a situação da URSS...
contei a Ehrenburg tudo que sabia de Ezhov...”. E além de
Ehrenburg, é extremamente prolífico quanto a Sergei Eisenstein:
“trabalhei com Eisestein... estava ele convencido de que a organização
do cinema soviético, sua estrutura e seus dirigentes impediam que
os diretores de talento se realizassem plenamente...” e menciona
reuniões onde “explicávamos que Maiacóvski
se tinha suicidado porque acreditava que era impossível trabalhar
nas condições soviéticas...”
No decorrer dos primeiros meses de prisão, Babel chega ao extremo
limite de recusar suas pró-prias obras e denunciá-las: “Os
contatos permanentes com os trotskistas”, confessou, “tiveram
sem dúvida uma influencia nefasta em minha obra” e especificamente
sobre sua produção mais popular: “Cavalaria Vermelha
me serviu de pretexto para manifestar meu horrível estado de ânimo,
que nada tinha a ver com o que ocorria na URSS.” Entre julho e setembro
não houve interrogatórios registrados, mas certamente o
trabalho de confissões continua. De fato, em finais de agosto,
Babel escreve ao já todo-poderoso Beria uma extensa carta de arrependimento,
“a revolução me abriu o caminho da criação,
o do trabalho feliz e útil. Meu individualismo, as opiniões
literárias errôneas, a influência dos trotskistas,
sob a qual caí desde o começo do meu trabalho, me desviaram
desse caminho... a libertação me chegou com a prisão.
Durante esses meses de prisão compreendi mais coisas do que em
toda a minha vida... aqui, no meu isolamen-to, pude ver o país
soviético com olhos novos, tal como é realmente, incrivelmente
belo... movi-do só pelo desejo de purificar-me contei meus crimes,
cidadão Comissário do Povo...”.
O processo de Isaac Babel se parece até aqui com tantos outros
daqueles anos, onde as confis-sões eram também expiações
de crimes reais ou imaginários contra o Estado. Mas a partir desse
momento alguma coisa aconteceu na consciência de Babel. Em outubro,
o escritor foi levado novamente a interrogatório, mas sua declaração
foi totalmente diferente. Ante uma junta de inquiridores perplexos, Babel
declarou que “caluniei a algumas pessoas e dei declarações
falsas acerca de uma parte de minha atividade terrorista... menti ao inquérito
por covardia...” É nova-mente chamado a depor em 21 de novembro
e retorna ao mesmo assunto: “minhas confissões contêm
afirmações incorretas e falsas, imputando atividade anti-soviética
a pessoas que traba-lham honradamente e com abnegação pelo
bem da URSS...”. Chentalinsky, ao comentar essa súbita mudança
apenas estranha que Babel não tenha renegado toda sua confissão
de uma só vez, mas, inicialmente, apenas aquela que incriminava
outras pessoas. Numa argüição de 2 de janeiro de 1940,
novamente afirma que “caluniei pessoas inocentes...” e cita,
dessa vez, nomi-nalmente, Ehrenburg, Eisestein, Seifulia e todos os nomes
que declinara na fase de interrogató-rio.
O caráter de Babel se revela aqui em toda sua plenitude. É
um processo lento, de emergência da vontade no meio do caos da insanidade
persecutória. Chamado por fim a ouvir sua sentença, é
inquirido se “reconhece sua culpa?” Babel é claro e
rompe totalmente com o que confessara: “Não, não me
reconheço culpado. Tudo que confessei é falso. Antigamente
freqüentei os trots-kistas, mas só freqüentei... retrato-me
dessas declarações... Fui amigo de Malraux, mas não
me recrutou para os serviços secretos... isto não é
verdade.. não sou culpado de nada, jamais fui um espião,
não cometi nenhum delito contra a União Soviética.
Caluniei a mim mesmo durante minha declaração. Só
peço uma coisa, que me deixem concluir meu trabalho...”.
A sentença desconsidera sua última declaração
e, por trotskismo, espionagem a favor dos serviços secretos francês
e austríaco e terrorismo, foi condenado “a pena capital mediante
fuzilamento”. A sen-tença foi executada em Moscou em 27 de
janeiro de 1940.
Parece evidente que Babel, tendo sido inicialmente confrontado com a violência
do NKVD, cedeu à mentira. Mas foi maravilhoso, no entanto, o movimento
pelo qual recuperou lentamente a sua verdade. O fez não através
da recusa pura e simples das acusações, mas por conta da
ne-cessidade de preservar aqueles que, na sua opinião, eram inocentes.
A verdade lhe surgiu de forma conseqüente através do respeito
ao outro. Esse, parece, foi o ponto nevrálgico que lhe restabeleceu
a sanidade. A partir daí acabou, afinal, resgatando corajosamente
a sua realidade. “Tudo que confessei é falso... que me deixem
concluir meu trabalho”, suas últimas palavras registradas
demonstram um reencontro consigo mesmo, suas crenças e sua identidade.
O Estado reabilitou-o ainda antes do XX Congresso do PCUS, em 1954. Isaac
Babel é uma daquelas per-sonalidades que simbolizam a resistência
dos valores humanos diante das forças desumanizado-ras da história.
Em frente à morte recobrou sua humanidade e confiança. Ele,
que era um “escri-tor, sem partido, judeu”.
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